
Sempre lembro do quintal da minha avó, dos amigos que me visitavam e da bagunça que fazíamos.
Colecionei de papel de carta, figurinhas do amor perfeito, fiz pipoca no velocípede, tomei deliciosos banho de mangueira, de chuva (esses até hoje são rotina), brinquei muito de esconde-esconde naquele enorme quintal, subi nas árvores e caí de algumas, acendi grandes fogueiras e assei batatas em todas elas… As queimaduras por isso, assunto à parte.
Aquela cozinha lembra muitas tardes ajudando a nona a modelar rosquinhas de massa em cima da mesa ou tantas outras inventando novos formatos para os biscoitos de polvilho (enquanto comia a massa crua escondida) e os pratos cheios de ambrosia…
Tantos sorrisos satisfeitos por ter “cozinhado”… Como isso fazia com que me sentisse adulta!
O tempo passou, novas fases aconteceram e marcaram também por grandes momentos e outros nem tão grandes, mas independente disso sempre estive acompanhada da minha família, dos grandes amigos que adotei como irmãos, dos amores e paixões.
Família italiana… Ou seja, fui condicionada desde que nasci a não estar sozinha e já desisti de lutar contra isso apenas convivo, contorno, esbarro, tropeço e sigo.
Tentar fugir da origem nessas horas é tolice.
Em muitos momentos percebo que mesmo inconscientemente segui em busca do outro, seja por atenção, por necessidade de compartilhar, por carência, vazio, amor, saudade… Tantas coisas!
Creio que meu condicionamento emocional foi fortemente marcado pelo passado quando a vida era aproveitada seguindo uma ordem mais natural, os dias aconteciam mais lentamente e aproveitávamos cada momento sem pressa como se fosse único… Hoje são muitos planos, muitas metas, muitas necessidades urgentes que nos empurram contra nossos anseios, que na grande maioria das vezes são postos de lado em busca de realizações que nada tem a ver com o que nós intimamente buscamos.
As horas fogem do relógio enquanto corremos atrás delas perdendo muito do que nos faz reconhecer quem somos.
Em nenhum momento ignoro o mérito ou a necessidade da satisfação que sentimos quando usamos nosso tempo em busca de outras conquistas não tão pessoais… Pelo contrário!
Minha intenção aqui hoje é somente permitir ao meu coração saborear seus maiores tesouros, as mais preciosas conquistas daquele tempo quando ainda não tinha noção de que aquela segurança não seria suficiente quando crescesse… Ninguém nos prepara para o mundo tão bem como o tempo que vivemos.
Por mais que isso tudo fique guardado apenas como saudosa lembrança, jamais quero permitir ao meu coração esquecer os dias com entardecer cor de jambo que são tão parte minha como fui parte deles…
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